terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pássaro branco.

Minhas janelas estavam fechadas e embora eu não tivesse notado já haviam se passado dias. Talvez meses, quem sabe anos, e eu presa no meu quarto.
Minha redoma particular. Impenetrável. As dores não me atingiam aqui.
Não vi o que estava la fora,  não ouvi barulhos.O mundo estava ausente em mim.
Ou talvez eu estivesse ausente do mundo.

[...]
Mas um dia eu me permiti dormir, e sonhar.
Sonhei que estava vivendo. Tão completamente, tão inebriada com o cheiro da vida que quando acordei, quis viver.
Abri as janelas, o dia tinha se passado. O sol estava morrendo.
Mas foi só pra nascer novamente. Dentro de mim!

domingo, 28 de agosto de 2011

Minuano.

Despindo-me de medos, nadando em águas rasas.
Na  esperança vã de fazer diferença no mundo.
No meu, pelo menos.

Um andarilho, um caminho, uma certeza.
Hoje dormirei sob as estrelas.
E nada mais.

O minuano se aproxima.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Anatomia

Do meu corpo já não restaram tantas partes.
A pele se desgastou com os toques e não reage mais a qualquer estímulo
O coração cansou de bater em seus compassos. Desafinou.

 Aos interessados, agora lhes apresento minhas vísceras, nervos e músculos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Cadernos de Laura II



Não quero teu sorriso, nem teu olhar.
Me intrigando, me roubando o sono.
Tu fostes um dia o que me motivava e hoje só me matas, pouco a pouco, descompassadamente.
Sem dó nem piedade. Indiferente.


E tu insistes em aparecer quando não quero, quando não posso pensar. Não em ti.
E eu não sei como dizer como me sinto.  
Perco meu tempo, em devaneios desnecessários, mas o pensamento é teu.


O triste se converteu em belo.
Só assim te mantenho perto de mim.
E por isso te sepultei na minha alma, no coração,como uma canção triste e eterna.
Infortúnio prazeroso.
Masoquismo necessário.


Em goles e tragos, culpo o coração.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Impulso.

Hoje não precisarei de personagens, não precisarei de máscaras, nem de intérpretes. Apenas de um roteiro cru e despido de pudores, como uma síntese da minha própria vida.

[...] E os eventos continuam se atropelando de uma forma tão incoerente que eu mesma já perdi o fio da meada. Em mim não há qualquer animação ou êxtase, mas o tempo ainda é brando e não exige grandes esforços.
Só que toda essa amenidade, toda essa calma, me incomoda. Essa insatisfação crescente e pulsante se torna tristeza que surge em mim de tempos em tempos. 
Eu não sei aonde foi que eu parei de viver, aonde foi que me deixei perder, aonde foi que fodi com tudo, mas ainda tenho lá meus motivos de alegria e (agradeço), são mais freqüentes que esses de insatisfação. E talvez esses incômodos não me coubessem visto a minha idade, mas minha alma já viveu demais. Culpe o tempo, a relatividade ou Einstein.
Hoje o meu tempo é gasto nas futilidades dessa vida, com coisas sem tanta importância, como vinhos e cigarros, ocasionais crises existenciais e algumas rodas de violão. Passou-se enfim o tempo, em que eu não me preocupava com o futuro e o porvir. Mas o amanhã é agora a minha incógnita favorita e, talvez, a única. Quem sabe seja essa a razão da minha falta de capacidade de agir. O duvidoso é cruel. 
Não sinto medo, apenas não sinto pressa em viver.

domingo, 13 de março de 2011

Cadernos de Laura

Estou parada no meio do meu quarto onde tudo o que vejo é uma pequena vela que já finda. A necessidade de escrever tornou-se uma obsessão. Pois é só quando me privo de enxergar é que observo : quando tudo parece estar disperso, é que se pode enxergar com mais clareza. E eu pude olhar além dessa chuva pesada que cai. Não vi a lua, não vi estrelas, tudo o que vi foi meu reflexo no vidro da janela e ele parecia me dizer: " A culpa é sua. Sempre sua"!
Não costumo chorar, essa é uma fraqueza que não me permito, mas aquele olhar, o meu olhar, condenava.. De todas as formas.
Um pensamento recorrente : " Tem coisas na vida que parecem castigo, mas não são." 
Meus olhos já  estão vermelhos, mas não choro.Não há porque.
São nesses desabafos que eu revivo, de uma forma que só eu entendo. Como se fosse um exercício de sanidade.
Quem já viveu um grande amor, talvez entenda, essas agonias é o que faz o coração pulsar no peito e faz você perceber porque ainda está vivo. Mesmo que não consumado, mesmo que não vivido.

O ato de amar envolve coragem.
E sentir medo é proibido
Medo de arriscar.
Medo de assumir
Medo de não conseguir encontrar as palavras certas.
Medo de sentir medo.

E o meu pecado foi esse. Me afoguei nos rios do meu medo.



OBS: Inspirado no romance A Casa das Sete Mulheres

sábado, 5 de março de 2011

Legado I

Isadora ainda pensa, até cansar, em todos aqueles momentos. As memórias lhe deixaram pra morrer.
Não lembrava de quando tinha sido a última vez que tinha sentido tanta dor, pelo que recordava, nunca tinha sentido nada que pudesse se equivaler àquele aperto na espinha, àquela estocada no peito. Mal ela sabia que essas dores vem e vão na vida das gentes.
Sentia falta do abraço, do toque, das palavras. Sempre das palavras. Ninguém haveria de proferir palavras com tanta firmeza como aquela outra mulher.
Isadora era o reflexo vivo da outra. Querendo ou não, sempre vai ser. 
Agora, mais do que nunca, se sentia só. Oca. Cheia de nada. Ocasionalmente preenchida por um choro agudo, mas nenhum outro sentimento a não ser tristeza.
Aprendeu nos seus dezoito anos, que ninguém iria substituir aquela mulher na sua vida. Era uma semente plantada no solo de sua alma. 
Enterrava não somente uma pessoa, mas um punhado de histórias, conversas, gestos e carinhos, que tinha guardado pra ela, somente para ela. A mãe , a mais poderosa das mães que pudera conhecer. E era sua, pra sempre!